Em que mundo você vive?



Marisa Fonseca Diniz


Vivemos tempos sombrios na face da terra...

Sinceramente, hoje fiquei muito triste depois de uma conversa com um familiar, que acredita, não arreda o pé, que todo “pobre” é vagabundo e não gosta de trabalhar, pois em sua opinião, emprego no Brasil existe em abundância, porém o problema são as pessoas que não querem receber salário baixo e ficam escolhendo muito, pois com cem reais ao mês qualquer indivíduo vive.

No Brasil, o custo de vida nos grandes centros urbanos é alto, mal se vive com um salário mínimo, o que diria com cem reais ao mês? Fácil falar quando temos uma vida bem resolvida, difícil mesmo é engolir pessoas que nos dão uma ajuda mensal, porém a todo tempo nos joga na cara que não queremos trabalhar, mesmo quando estamos fazendo de tudo para não dependermos mais de ninguém.

Abrimos empresa para tentar ter um ganho mensal, mas nem sempre o tal ganho vem de imediato. Montamos uma loja virtual para termos uma renda mensal que pague nossas despesas básicas, porém nem sempre é possível obter ganhos médios todos os meses, fazemos faxina, cozinhamos para fora, lavamos e passamos roupa, damos consultoria, guardamos dinheiro, deixamos de comer para ter dinheiro no final do mês, procuramos emprego, trabalhos e “bicos” vinte e quatro horas por dia, ou seja, fazemos de tudo um pouco para ter um ganho mensal que possa suprir as necessidades básicas, e mesmo assim nem sempre conseguimos agradar e muito menos fazer com que as pessoas entendam que não é preguiça e sim falta de oportunidades para quem está desesperado há tanto tempo por um emprego.

É fácil condenar, quando todos esperam que sejamos eficientes em plena recessão, porém ninguém para pra pensar que mesmo quando criamos oportunidades, o dinheiro não vem de imediato. Falar que todo mundo é vagabundo é provar que apenas uma pequena parte da população tem direito de viver bem, não importando se para isso exploram ou escravizam outras pessoas. 



É triste saber que quanto mais uma pessoa tem de dinheiro, mas ela acredita que os outros são miseráveis porque querem. Generalizar todos porque uma minoria não quer fazer nada é absurdamente errado. Não devemos jamais apontar o dedo para o outro sem antes conhecermos a dura realidade de cada um. Há muitos estudados, não apenas no Brasil como no resto do mundo, fazendo faxina para sobreviver, assim como há tantos outros sem estudo catando papelão, latinhas de alumínio, comendo resto de comida do chão ou morando à beira de córregos, não porque querem, e sim porque não encontraram a tal oportunidade de sair de lá e ter uma vida digna.



Essa mesma pessoa disse-me que deveria tentar viver de pesquisas pela internet, apenas esqueceram-se de dizer a este cidadão, que não há salário mensal, apenas cupons de desconto em redes credenciadas dos sites. Nunca ouvi ninguém dizer que paga água e luz com cupons de desconto. 

Interessante como as pessoas estão cada dia mais hipócritas, não se sentem impactadas com a situação daqueles que mesmo tentando diariamente sobreviver à recessão nada conseguem, sentem-se envergonhados com a situação, e aos poucos vão perdendo a dignidade de viver.

Não importa para estas pessoas, pois nada será bom o suficiente, se você tem um emprego que te faz crescer como cidadão, mas não te paga um bom salário, você é taxado como incompetente. Se você trabalha com mídias sociais, marketing digital ou e-commerce com certeza será taxado de vagabundo. Se você tem um pequeno ganho mensal como diarista mesmo tendo um diploma de doutorado, lhe dirão que é burro, nada está bom tudo é motivo para dizer que não sabe criar suas próprias oportunidades. Difícil agradar os outros, mesmo quando você está fazendo de tudo para sobreviver.

Nem tente rebater as acusações e críticas, quando dizer que todos os cidadãos têm direitos iguais, logo irão dizer que é comunista ou defensor de algum partido político de esquerda, mesmo você discordando das teorias pregadas. Tenha consciência, o errado sempre será você, nunca quem tem pensamento retrógrado e vive na época da primeira revolução industrial, pior ainda se ele tiver outros filhos que estão em situação mais privilegiada que a sua, com certeza o taxarão de preguiçoso.



Um fato é bem claro, quanto mais bem sucedido for o crítico, maior será o “gap” social entre as partes que discutem. Quem está nos degraus acima da classe social, jamais enxergará a verdade do que acontece com aqueles que estão nas classes mais baixas. Materialistas e capitalistas são egoístas ao extremo, e esquecem que suas atitudes podem destruir qualquer um que esteja fazendo de tudo para conseguir algum tipo de sustento.




As pessoas precisam parar de apontar o dedo e começar a estender a mão, ninguém gosta de ser pobre, miserável ou estar em uma situação de risco. Se você aprendeu que pobre é burro e preguiçoso está na hora de começar a rever seus conceitos e enxergar além das próprias viseiras. Visite uma favela de perto ou vá conversar com um morador de rua, veja a situação social deles, que são considerados seres invisíveis para a sociedade, quando não são taxados de bandidos. Quantos que estão ali naquela situação não gostariam de ter tido a oportunidade de estudar, ter um trabalho menos explorador, ter uma vida digna para prover seus familiares?

Muitos se escondem atrás de suas atitudes autoritárias por medo de fracassar e ter que abrir mão de suas mordomias, aliás, o que as outras pessoas irão dizer, não é mesmo? Os fracassos são ótimos aprendizados, pois é dessa maneira que enxergamos como sobreviver a altos e baixos da vida. Não podemos esquecer que, muitas pessoas que vivem em situações de risco possuem mais força de vontade do que aquelas que tiveram mais facilidades na vida.

O capitalismo força as pessoas a serem reconhecidas pelo montante que possuem nas suas contas bancárias, mesmo que para isso elas precisem destruir os outros. Não é necessário muito para ser feliz, mas respeitar e dar oportunidades a qualquer pessoa é primordial. Jamais se esqueça de que todos merecem ter a mesma chance de estudar, trabalhar, viajar, ter saúde e comer do bom e do melhor todos os dias. Os direitos devem ser os mesmo tanto para os abastados como para os mais necessitados.

Achar que somente aqueles que têm dinheiro ou uma condição confortável possuem o direito de ter o melhor dessa vida é problemático, pois se colocar no lugar do outro é uma atitude sábia. Pode-se até não querer mudar de opinião ou a maneira de ver o mundo, mas com certeza todos nós pagaremos por nossos atos, e o retorno virá seja fisicamente, psicologicamente ou espiritualmente. O preço a ser pago nem sempre é tão doce quanto às palavras amargas e ásperas que dizemos aqueles que estão em situações mais delicadas, cuidado para amanhã não estar na mesma situação daquele que se condena hoje.

Portanto, pense bem em que mundo você vive? No mundo dos ricaços e hipócritas ou no mundo dos sábios e empáticos? Não se esqueça, só teremos um mundo melhor o dia que todos entenderem que os direitos são um bem comum para todos e não apenas para uma minoria que se acha o dono do mundo!

Artigo protegido pela Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. É PROIBIDO copiar, imprimir ou armazenar de qualquer modo o artigo aqui exposto, pois está registrado.



Licença Creative Commons
O trabalho Em que mundo você vive? de Marisa Fonseca Diniz está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://cafesonhosepensamentos.blogspot.com/2018/10/em-que-mundo-voce-vive.html.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.