O Barbeiro do Marechal


Fernando Sabino




Contou-me que depois de alguns uísques, na espera de um amigo que afinal não apareceu, decidiu aproveitar o tempo e cortar o cabelo. Desceu do bar para a barbearia do próprio hotel. O barbeiro lhe pareceu lento e cansado, depois de um longo dia de trabalho:

- Aqui onde o senhor me vê, estou de pé desde cinco horas da manhã – explicou ele.

Espantou-se:

- Cinco horas? A que horas abre esta barbearia?

- Às nove. Mas me levanto todo dia às cinco para pegar um serviço às seis.

E o barbeiro aprumou-se:

- Sou barbeiro do Marechal. Há dezesseis anos.

- Dezesseis anos? Mas então você já devia estar bem de vida.

- Eu estou bem de vida – suspirou o barbeiro, batendo automaticamente a tesoura em torno de sua cabeça: - Não tenho de que me queixar.

- Continua o barbeiro.

- Como?

- Continua barbeiro: já devia ter-se arranjado.

O barbeiro ficou a olhá-lo em silêncio. Buscou posição mais cômoda na cadeira:

- Você faz a barba do homem há dezesseis anos, e até hoje não se arranjou?

- Que é que o senhor quer? É um bom freguês.

- Quanto é que ele paga?

- O que todos me pagam. Barba fácil, não exige nada de especial...

- Só exige acordar todo dia às cinco horas.

O barbeiro continuou a reger o seu trabalho com o pente e a tesoura:

- É um bom homem – insistiu: - Me trata com toda consideração.

- Pois olha, vou lhe contar: conheci o barbeiro de um Presidente que pegou uma boa nomeação e hoje tem seu apartamentinho, as filhas nos melhores colégios... 

É o que todos fazem. Isso é que eu chamo de consideração.

O barbeiro deteve a tesoura no ar, ficou pensando:

- Qual... Quem nasceu para barbeiro... Conto com ele e ele conta comigo: nunca falhei um só dia e ele nunca me falhou.

- Mas nunca lhe arranjou nada?

- Uma ocasião me deu uma carta de recomendação. Com toda boa vontade, bastou que eu pedisse. Negócio aí de um empréstimo no Instituto... Ficou por isso mesmo, mas não foi culpa dele.

- Isso até eu arranjava. Vou lhe dar meu telefone, caso ainda venha a precisar.

Findo o serviço, ergueu-se na cadeira, vestiu o paletó, pagou, deu uma boa gorjeta:

- E lhe digo mais: o que você merecia era uma condecoração.

Foi-se embora, depois de dar-lhe o seu cartão. A manhã seguinte a mulher veio acordá-lo:

- Tem um recado esquisito para você.

A partir do qual, não se espantem os vizinhos do Marechal, se derem por aí com a sua figura familiar pela primeira vez de barba por fazer. Este era o recado:

- O barbeiro mandou avisar que não foi fazer a barba do Marechal.

Um comentário:

  1. Boa história!
    Parabéns pela as postagens.
    Continue assim com essas mensagens de reflexão.
    Fique com Deus e até mais!

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