Negócio de Menino


Rubem Braga



Tem dez anos, é filho de um amigo, e nos encontramos na praia:

-Papai me disse que o senhor tem muito passarinho...

-Só tenho três.

-Tem coleira?

-Tenho um coleirinha.

-Virado?

-Virado.

-Muito velho?

-Virado há um ano.

-Canta?

-Uma beleza.

-Manso?

-Canta no dedo.

-O senhor vende?

-Vendo.

-Quanto?

-Dez contos.

Pausa. Depois volta:

-Só tem coleira?

-Tenho um melro e um curió.

-É melro mesmo ou é vira?

-É quase do tamanho de uma graúna.

-Deixa coçar a cabeça?

-Claro. Come na mão...

-E o curió?

-É muito bom curió.

-Por quanto o senhor vende?

-Dez contos.

Pausa.

-Deixa mais barato...

-Para você, seis contos.

-Com a gaiola?

-Sem a gaiola.

Pausa.

-E o melro?

-O melro eu não vendo.

-Como se chama?

-Brigitte.

-Uai, é fêmea?

-Não. Foi a empregada que botou o nome. Quando ela fala com ele, ele se arrepia todo, fica todo despenteado, então ela diz que é Brigitte.

Pausa.

-O coleira o senhor também deixa por seis contos?

-Deixo por oito contos.

-Com a gaiola?

-Sem a gaiola.

Longa pausa. Hesitação. A irmãzinha o chama de dentro d'água. E, antes de sair correndo, propõe, sem me encarar:

-O senhor não me dá um passarinho de presente, não?

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